Para crescer, o Brasil precisa poupar mais

 

São Paulo - O americano Benjamin Franklin não entrou para a história somente por ter sido um dos fundadores dos Estados Unidos. Cientista, jornalista e diplomata, ele publicou, em 1758, um ensaio chamado O Caminho da Riqueza, no qual cunhou frases que séculos depois se enraizariam na cultura popular.

“Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje” e “Tempo é dinheiro” são algumas das mais conhecidas. Eis outra das máximas de Franklin: “Se pretende enriquecer, pense em economizar tanto quanto em ganhar”. Parece óbvio — para guardar dinheiro é preciso, antes de mais nada, não gastar tudo o que se ganha.

Trata-se de uma lição que precisa ser aprendida urgentemente pelo Brasil. De 2008 para cá, a poupança doméstica, que corresponde a todo o dinheiro que não foi gasto em consumo, caiu de 19% para 14% do PIB. Para o tamanho de nossa economia, poupamos proporcionalmente menos que outros países latino-americanos, como Chile, Peru e Colômbia.

Também ficamos bem atrás de asiáticos como Coreia do Sul e China e de europeus como Itália e Espanha. Angola e África do Sul também poupam mais do que o Brasil. Em qualquer comparação que se faça, vamos mal nesse quesito. Aliás, muito mal.

A razão para isso é que, na história recente do Brasil, o estímulo aos gastos — com medidas como os cortes de impostos de geladeiras e carros e a ampliação do crédito — tem sido superior à indução a poupar. Uma das implicações é a incapacidade de o país manter períodos longos de prosperidade.

“A expansão da economia é limitada pela falta de poupança”, diz Bernard Appy, sócio da consultoria econômica LCA. “Criar incentivos para aumentá-la é essencial para o país sair da armadilha do crescimento baixo.”

Por que o tamanho da poupança é tão importante para a expansão da economia? A ideia é que o dinheiro que não é consumido pelas pessoas, pelas empresas ou pelos governos pode se tornar fonte de recursos para investimentos em estradas, portos, fábricas e em tecnologias e, assim, aumentar a capaci­dade de produzir de forma mais eficiente, sem gerar inflação.

Desse modo, a escolha entre estimular a poupança ou o consumo tem impacto direto no ciclo de crescimento dos países. Em nações que incentivam a poupança, boa parte da riqueza gerada é direcionada para investimentos. O consumo cresce em velocidade menor, mantendo a inflação sob controle. Isso dá base para uma expansão sustentável.

Já no Brasil o avanço da economia estimula quase que somente mais consumo. O resultado? Logo a economia dá sinais de esgotamento. A inflação decola e o país para de crescer.

“Nos países asiáticos, surtos de crescimento aumentam a poupança e, com isso, o sistema se realimenta positivamente, prolongando o ciclo de expansão”, diz o economista Samuel Pessôa, pesquisador da Fundação Getulio Vargas. “Isso não acontece no Brasil.”

Aqui, faltam incentivos institucionais para a poupança. Trocando em miúdos, fica difícil convencer alguém a poupar quando o governo não dá exemplo e, pior que isso, encoraja as pessoas a gastar. É por isso que, no Brasil, o consumo das famílias e do governo, juntos, responde por 84% do produto interno bruto.

Com a pesquisadora Silvia Matos, também da FGV, Pessôa estimou quanto os incentivos institucionais em cada país influenciam a taxa de poupança doméstica. Entre 30 países analisados, a mais alta taxa de poupança doméstica é a chinesa, que atinge 52% do PIB. (Vale relembrar: o Brasil poupou o equivalente a 14% do PIB.)

A diferença começa pelo fato de que o governo chinês poupa 11% do PIB por ano — aqui, a contribuição do governo tem sido negativa em 3 pontos percentuais. Mas o índice até exagerado de poupança da China é resultante em boa medida de um incentivo forçado à população.

Como não há por lá um sistema de previdência social, os chineses precisam guardar parte do salário para não passar fome na velhice ou quando ficarem desempregados. O estímulo forçado gera um quarto da poupança chinesa. “Na China existe a percepção de que a pessoa precisa poupar para ter qualidade de vida”, diz Ilan Goldfajn, economista-chefe do banco Itaú.

Aqui estamos no outro extremo. Quase ninguém se preocupa com o amanhã. Não temos, nem de perto, o estado de bem-estar social que vigora nos países mais ricos da Europa.

O que há por aqui são gastos sociais mal distribuídos. Se, por um lado, temos um programa como o Bolsa Família, que vem aliviando a pobreza extrema, por outro há casos flagrantes de abuso, especialmente nas aposentadorias do setor público. Um sistema previdenciário extremamente generoso e vitalício retira qualquer estímulo à poupança.

Não se trata de pedir ao governo brasileiro que adote o modelo linha-dura de Pequim. Mas é conveniente refletir sobre a experiência de outros países democráticos, que fizeram reformas para diminuir os gastos sociais e elevar a taxa de poupança. É o caso da Austrália, que em 1992 fez uma reforma na Previdência com o objetivo de aumentar o nível de poupança.

Até então os australianos podiam, caso quisessem, contribuir com fundos de previdência privada para garantir a aposentadoria. Foi quando o governo criou um valor mínimo obrigatório de contribuição. Hoje, o empregador precisa depositar 9,25% do salário de cada funcionário num fundo previdenciário que o trabalhador escolhe.

Em 2021, a alíquota mínima vai subir para 12%. Os trabalhadores podem fazer aportes adicionais para ter renda maior no futuro — e há vantagem nisso, porque os fundos competem pelo dinheiro do trabalhador oferecendo juros de mercado.

Em duas décadas, a taxa de poupança da Austrália passou de 22% do PIB para 28%. Estudos mostram que a mudança no modelo de pensão foi responsável por 1,9 ponto percentual do ganho, com previsão de ultrapassar os 3  pontos em 2050.

O diagnóstico da situação no Brasil indica que vai ser difícil poupar mais enquanto o governo for perdulário. Segundo um relatório do banco Goldman Sachs, a máquina pública suga dos brasileiros, por meio de impostos, o equivalente a 38% do PIB.

E, mesmo arrecadando quase dois quintos da riqueza gerada, os gastos são ainda maiores, chegando a 41% do PIB. Para fechar as contas, o governo precisa recorrer à poupança externa. Nos últimos anos, o efeito da baixa poupança doméstica foi mitigado tomando recursos de fora.

Em 2004, o saldo em conta-corrente do país era positivo em 1,4% do PIB. No ano passado, o resultado foi um déficit de 4,1% do PIB. Se oferecesse serviços públicos escandinavos e investisse em padrões asiáticos, pouca gente iria reclamar. Mas o poder público brasileiro toma muito e entrega pouco — o investimento aqui não chega sequer a 2,5% do PIB.

É menos da metade do que investem governos do Peru, do Chile, do México e da Colômbia, para ficar só na nossa vizinhança. “O setor público brasileiro extrai muito da sociedade, se endivida e investe pouco”, diz Alberto Ramos, economista-chefe do Goldman Sachs. “Para aumentar a poupança sem gerar déficits ainda maiores, é preciso reduzir o crescimento do gasto federal.”

“Voo de galinha”

Essa é uma das razões pelas quais os especialistas há décadas usam a expressão “voo de galinha” para descrever o comportamento da economia brasileira, marcada por surtos de crescimento curtos e irregulares. Em 2008, o Brasil estava no auge de um ciclo de crescimento.

Foi quando o economista Ricardo Hausmann, diretor do Centro para o Desenvolvimento Internacional da Universidade Harvard, publicou um artigo intitulado Na Busca das Correntes Que Seguram o Brasil. Enquanto as análises sobre o desempenho da economia brasileira eram tomadas pela euforia, Hausmann adotou a cautela.

Disse que o crescimento do PIB era baixo e, mesmo assim, estava acima da capacidade de nossa economia. “O maior empecilho ao crescimento é a baixa poupança doméstica”, escreveu ele. Seis anos depois, o crescimento médio de 4% ao ano não se sustentou. Os investimentos caí­ram a 18% do PIB.

Passado o boom de consumo, a economia esfriou. Em 2014, o país caminha para o quarto ano de desempenho modesto. O déficit nas contas externas alcançou nível elevado para um país em desenvolvimento com juro alto e desconfiança dos investidores estrangeiros. Pior: a fase do capital externo barato passou.

No dia 19 de maio, Richard Fisher, presidente do Federal Reserve (banco central americano) de Dallas, disse que o Brasil “desperdiçou uma enorme oportunidade” de crescer de forma sustentável criada pelo excesso de liquidez internacional.

A recente política de relaxamento monetário dos Estados Unidos, que está para acabar, barateou os empréstimos. Muitos recursos vieram, mas o Brasil, em vez de financiar investimentos, consumiu mais. O professor Hausmann, infelizmente, estava certo.

 

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