Para fechar o ano, uma revisão das metas de 2013

 

 

É pouco provável que 2013 seja lembrado com euforia por bancos de varejo e de investimentos. Impactados pela modesto desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), de 2,3%, pela falta de confiança dos empresários, instabilidade fiscal, desvalorização cambial, juros ascendentes, inflação no teto da meta e medo da inadimplência, os bancos contraíram algumas operações de crédito e não tiveram as respostas esperadas do mercado de capitais. Tanto que a maioria das instituições revisou suas metas (guidance) e optou por transações com menor risco de calote. O resultado foi um avanço de 12,8% - média dos 38 bancos que publicaram suas demonstrações financeiras até 10 de março - na carteira total de crédito em 2013, inferior às projeções iniciais que apontavam para a possibilidade de incremento de até 20%

Olhando de longe, não parece ruim. Mas dissecando melhor os números, o cenário muda. Alguns bancos como Itaú e Santander tiveram uma performance inferior à de 2012 nas receitas geradas diretamente com crédito, com encolhimento de 2,5% e 2,7% respectivamente. O que preocupou alguns analistas. "Isso porque as instituições financeiras foram 'obrigadas' a reduzirem seus spreads (diferença entre o custo de captação dos recursos e dos empréstimos) e tarifas seguindo o movimento 'imposto' pelos bancos públicos", avalia Erivelto Rodrigues, presidente da Austing Rating, agência de classificação de risco especializada no setor financeiro e responsável pelos cálculos acima.

Com as projeções para os indicadores fiscais e econômicos para este ano iguais ou piores às de 2013, fica uma sensação de déjà vu no ar. "O resultado recorrente dos bancos deve ficar entre 8% e 12% em 2014 já considerando a elevação na margem de spread que começou a ocorrer este ano. A rentabilidade sobre o patrimônio tende a continuar entre 15% e 16%, o que eu considero baixo, tendo em vista que em 2011 era de 21%", pondera Rodrigues. Ele também chama atenção para a piora no índice médio de eficiência operacional dos bancos, em 66,1%. Dos cinco maiores, o Itaú teve a melhor perfomance, com 51,5%. A pior foi do Santander, com 73,1%.

Para o ex economista-chefe da Febraban (Federação Brasileira dos Bancos), Roberto Luis Troster, há um ciclo vicioso e virtuoso entre os bancos e o crescimento do PIB. "Se o crédito funciona bem, você tem um motor importante para a economia e vice-versa", afirma. Troster também classifica de ruim o perfil dos financiamentos no país. "75% das concessões são de curto prazo e com spreads muito elevados. Enquanto o spread no Brasil está em 28,7%, no Chile é de 4,3%", alerta

Afetadas ainda pela conjuntura externa desfavorável, as operações dos bancos de investimentos também encolheram. De um lado, as mudanças na lei de incentivo fiscal dos EUA, e, do outro, a falta de investimento novo por parte do empresariado brasileiro derrubaram as emissões de títulos de dívida no mercado doméstico (de R$ 128,9 bilhões em 2012 para R$ 107,3 bilhões em 2013) e internacional (de US$ 50,5 bilhões para US$ 38,1 bilhões). Nem as transações de abertura de capital trouxeram alento e não passaram de oito emissões primárias.

Em meio a um ambiente menos otimista, muitos bancos tiveram que contar com operações extraordinárias e contábeis para que aferissem resultados mais pomposos. Caso do Itaú e do Banco do Brasil. "O BB contou com R$ 9,7 bilhões do IPO do BB Seguridade e o Itaú reduziu em R$ 6 bilhões suas despesas com provisões para devedores duvidosos", salienta Rodrigues, da Austin Rating.

O Banco do Brasil apresentou o maior lucro líquido da história dos bancos no país, com R$ 15,75 bilhões, 29,1% superior ao resultado de 2012. A evolução na sua carteira de crédito veio mais expressiva do que a dos concorrentes e bateu a casa dos R$ 623,4 bilhões, avanço de 18,6%. Para chegar a este resultado, o banco decidiu, assim como seus pares, apostar em crédito de menor risco como consignado, imobiliários e CDCs. Só no imobiliário o salto foi de 87,2%, com R$ 24,1 bilhões, entre empréstimos para pessoas física e jurídica. Outro segmento de forte vocação do BB é crédito rural, onde é líder disparado, com R$ 144,8 bilhões em carteira, e incremento de 34%.

"Se o crédito funciona bem, você tem um motor importante para a economia e vice-versa." 

No mercado de capitais, atuou como líder nas principais operações. Esteve no topo do ranking da Associação Brasileira das Entidades Financeiras e de Capitais (Anbima) no total das emissões de debêntures em 2013, coordenando R$ 23,9 bilhões. Nas colocações externas, foram R$ 23, 04 bilhões. "Nós participamos de 48,9% de todas as emissões que ocorreram em 2013 e fizemos o maior IPO do mundo. Levantamos R$ 11,47 bilhões com o BB Seguridade. O BBDTVM alcançou em janeiro a marca de meio trilhão em recursos administrados", afirma Ivan Monteiro, vice-presidente de relações com investidores do Banco do Brasil.

Em um movimento de contração em relação ao financiamento de veículos, o Itaú Unibanco, maior instituição financeira privada do país, com ganhos líquidos de R$ 15,59 bilhões e avanço de 15,5%, viu a carteira de automóveis encolher 21%. E foi proposital. O banco também priorizou o crédito consignado e imobiliário, em que cresceu 67% e 34% respectivamente. A aquisição da Credicard por R$ 2,76 bilhões rendeu um acréscimo de 30% nos ganhos com cartões. A totalidade das linhas de crédito subiu 12,4%, para R$ 412,23 bilhões. Apesar da queda no índice de inadimplência, para 3,7%, o Itaú Unibanco deve manter este ano a mesma estratégia. "Vamos continuar com a fórmula que pede mais garantias e resulta em menor inadimplência", afirma Rogério Calderón, diretor executivo de relações com investidores e relações internacionais. O executivo prevê um "guidance" em 2014 entre 10% e 13%, com o desafio de aumentar a presença nas operações de crédito para pequenas e médias empresas.

Apesar de o Itaú BBA ter liderado muitas emissões de títulos em 2013, Calderón não vê ambiente muito propício para essas operações no momento e prefere priorizar a captação de recursos no mercado doméstico. "O apetite do investidor externo para papéis brasileiros está baixo. Para levantar funding, as empresas deveriam priorizar o mercado local", avalia. Outra alternativa está nas novas regras de concessão para infraestrutura que podem elevar os financiamentos das obras e destravar as debêntures para esse nicho.

Também de olho no crédito para PMEs e no mercado de debêntures de infraestrutura, o Bradesco, terceiro maior lucro no ano passado (R$ 12,01 bilhões, 5,9% superior a 2012), se ressentiu dos mesmos aspectos conjunturais e teve comportamento parecido. Sua carteira de PME, no entanto, avançou 11,5%, para R$ 128,5 bilhões. O banco continuará priorizando as linhas imobiliária (que avançou 30% em PF e 25% em PJ, em 2013), rural (13%), repasse do BNDES (12,7%), financiamento à exportação (27%) e veículos (12,6%). "Considerando um guidance entre 10% e 14% para 2014, nossa meta é que a carteira de crédito atinja 30% da participação total dos resultados. Hoje é de 28%", prevê Luiz Carlos Angelotti, diretor-executivo do Bradesco.

No mercado de capitais, o BBI aposta em uma melhor estruturação e IPOs. "Isso por duas razões. Primeiro, o Brasil deve mostrar melhoras na economia. Segundo, porque as ações estão muito baratas e a modificação do fluxo de recursos deve acontecer até por uma questão de oportunidade", afirma Angelotti. O Bradesco esteve entre os cinco maiores emissores de títulos privados no mercado mundial em 2013, com R$ 7,07 bilhões. E se posicionou em segundo lugar nas emissões internas de debêntures, com R$ 22,59 bilhões de originação - atrás apenas do BB.

No caso do Santander a situação foi diferente. Após um ano de reestruturação de 70 núcleos de negócios, uma das apostas para recuperar parte das perdas registradas no Brasil é o novo modelo de atendimento para pessoas físicas. A criação do segmento Select, voltado para clientes com renda a partir de R$ 10 mil pretende conquistar 1 milhão de novas contas.

O Santander viu seu lucro líquido recuar 21,7% em 2013 frente a 2012, para R$ 2,10 bilhões. A rentabilidade também ficou em um patamar mínimo de 3,4%. "Mesmo em um cenário macro adverso, nos reestruturamos para crescer. Um bom exemplo são as transações de adquirência, com tecnologia acoplada a celulares e tablets para operações com cartão de crédito. O ganho nesse nicho foi de 67% em 2013 e vai avançar muito mais este ano", afirma Conrado Engel, vice-presidente executivo sênior de varejo do banco. O público alvo são os profissionais liberais e as PMEs. As outras apostas são no crédito imobiliário, onde o banco registrou avanço de 33%, e nos projetos de infraestrutura, em que participou de operações que somaram R$ 32 bilhões.


Para acesso ao link original: http://goo.gl/ZC17Wc

 

Fonte: Valor Econômico (Por: Roseli Loturco)

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