Acesso ao crédito faz brasileiros buscarem educação financeira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quem busca ajuda para lidar com o próprio dinheiro nem sempre é o típico devedor. Pode ser um estudante que começou a trabalhar, alguém que perdeu o emprego, uma mulher que compra por impulso ou um aposentado que pede distância do crédito consignado.

Em uma sala do Procon, em São Paulo, 15 pessoas com estes perfis assistem a uma palestra gratuita de orientação financeira, oferecida todos os meses pelo órgão. Atentos às dicas do orientador Marcelo Neves, os participantes querem aplicar a suas vidas a "regra de ouro" das finanças pessoais: gastar menos do que se ganha.

No seu primeiro emprego, o estudante Felix Rabelo, de 16 anos, soube do curso pela professora de português do colégio e decidiu participar. Levou a colega Lígia Furtado, de 16 anos, que não trabalha e ainda mora com os pais, mas já quer saber como administrar os recursos que um dia vai ter.

“Como meu salário é curto, às vezes não sobra até o fim do mês. Preciso aprender a controlar meus gastos com o cartão de crédito”, conta Felix, que ainda não conquistou sua independência financeira.

 

Sem emprego, mas tranquilo
Antônio José Anastácio Junior, de 27 anos, está desempregado e sente falta de receber orientações sobre dinheiro. Mas as dicas não são para ele – que se diz controlado –, e sim para a mulher e o enteado. “Os dois são muito desregrados com dinheiro e vou repassar isso para eles”.

Junior procurou o Procon para esclarecer uma dúvida sobre o limite de seu cartão – que dobrou de valor sem justificativa –, e se interessou pela palestra. Apesar de estar procurando emprego, se diz tranquilo com as próprias finanças.

 

“Estou recebendo seguro-desemprego e consegui quitar algumas dívidas com o saque do FGTS”, diz. Com o dinheiro, Junior passou alguns dias na praia e agora diz não ter pressa para encontrar um novo emprego. “Já mandei alguns currículos. Mas se me chamarem agora, eu nem quero muito. Estou sossegado com o auxílio”.

 

Não é o caso da executiva de contas Joselaine Fátima de Faria, de 41 anos. Apesar de não ter dívidas no momento e ser assalariada, ela se diz preocupada em manter o orçamento em ordem. Para isso, faz planilhas de controle de gastos e despesas, e pratica uma auto-vigilância para não comprar itens caros demais.

“Já tive dívidas com o cartão, mas foram poucas. Desde então, quero me orientar como consumidora e aprender a me preparar para os imprevistos do futuro não serem tão desagradáveis”, diz.

Beneficiário do INSS
O aposentado Eurico Nelson Rente, de 65 anos, participa pela terceira vez de uma palestra do Procon, e conta  sempre aprender algo novo. Sem trabalhar, ele vive apenas do benefício da Previdência Social.

Diz que conseguiu renegociar algumas dívidas, mas ainda falta quitar pendências com dois credores. “Não consigo pagar à vista e eles não dão desconto em outro caso. Fui obrigado a pegar até o dinheiro da minha esposa, que também é aposentada, para pagar minhas dívidas”, conta.

A maior vontade de Eurico é livrar-se de um empréstimo consignado que, segundo ele, foi “a pior coisa que fez” nos últimos tempos. “Não tenho mais convênio de saúde e deixei de pagar a mensalidade de um clube do qual eu era sócio por causa dessa dívida”.

Mas o objetivo de ter acordado cedo para ir à palestra, conta o aposentado, não é quitar o que deve, mas aprender a usar melhor o próprio dinheiro.

A arrumadeira Ana Cleude Neves, de 40 anos, também acumula dívidas, e procurou o curso para “aprender a pensar mais antes de agir”. Ela se diz inconformada com a orientação de que é sempre melhor comprar à vista do que a prazo.

Ana Cleude só compra à vista se houver desconto. “Mesmo se eu tiver todo o dinheiro no banco para pagar, prefiro parcelar. Assim vou deixar ele rendendo por mais tempo”, diz. Outros participantes discordam.

Acesso ao crédito
Durante a palestra, Neves explicou que o interesse pela educação financeira aumentou a partir de 2010, quando os níveis de bancarização passaram a aumentar no país. Segundo Neves, um dos maiores problemas foi a geração de dívidas desnecessárias.

“O acesso ao crédito pelo sistema bancário era muito restrito, e quando tornou-se mais fácil, o consumidor ficou vulnerável”, analisa. Para Neves, os juros altos são o maior problema, especialmente do cartão de crédito e do cheque especial.

Em outubro, os juros cobrados pelos bancos nas operações a pessoas físicas com recursos livres (excluindo crédito rural, habitacional e do BNDES) chegaram a 44% ao ano, a maior taxa da série histórica do Banco Central, iniciada em março de 2011.

A supervisora de cursos e palestras do Procon-SP, Rosana Piccoli dos Santos, explica que parte dos participantes nunca havia visto uma planilha de controle de despesas domésticas, enquanto outra já tinha o hábito de anotar o orçamento.

“Recebemos muitas pessoas que já se endividaram, mas solucionaram o problema e querem se manter organizadas”, conta. Devedores no anseio de dar o primeiro passo para quitar as dívidas também procuram as palestras, conta Rosana, além de quem simplesmente deseja prevenir o problema.

Dos inscritos, há uma taxa de abstinência de cerca de 60%, segundo a supervisora. “Acreditamos que isso se deve ao fato de os cursos serem gratuitos e não exigirem um compromisso”, comenta.

 

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